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O estranho novo mundo no interior da Bíblia

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O estranho novo mundo no interior da Bíblia

Mensagem por Admin em Qui Maio 02, 2013 8:53 pm



Em 1916, um jovem pastor suíço, Karl Barth, fez um discurso no povoado vizinho de Leutwil, onde seu amigo Eduard Thurneysen era pastor. Barth tinha trinta anos. Ele havia trabalhado como pastor em Safenwil durante cinco anos e estava apenas começando a descobrir a Bíblia. A alguns quilômetros de distância, o restante da Europa estava envolvido em uma guerra, uma batalha epidêmica com mentiras e carnificina que marcou o que um escritor da época (Karl Kraus) chamou de “o fim irreparável do que era humano na civilização ocidental” — evidência política, cultural e espiritual de um mundo que se tornava inexoravelmente o que T. S. Eliot expusera em sua poesia, antecipando o futuro: “a terra assolada”. Numa época em que mentira e morte eram abundantes, do outro lado das fronteiras alemãs e francesas, na Suíça neutra, aquele jovem pastor descobrira a Bíblia como se fosse pela primeira vez, passando a considerá-la um livro absolutamente singular, sem precedentes. A alma e o corpo da Europa (e, eventualmente, do mundo) estavam sendo violados. Em todos os continentes, milhões de pessoas queriam saber de notícias do front e conhecer os discursos dos líderes mundiais, de acordo com o relato dos jornalistas.

Enquanto isso, Barth, em seu pequeno povoado distante, colocava por escrito aquilo que havia descoberto: as realidades extraordinárias desse livro, a Bíblia, cheias de verdade, dando testemunho de Deus, desafiando a cultura. Passados alguns anos, ele publicou o que havia descoberto em seu comentário Epístola aos Romanos. Foi o primeiro de uma série de livros que, nos anos seguintes, convenceriam muitos cristãos de que a Bíblia apresentava uma descrição bem mais precisa do que estava acontecendo em seu mundo aparentemente inexplicável do que aquela transmitida a eles por políticos e jornalistas.

Ao mesmo tempo, Barth decidiu resgatar a capacidade dos cristãos de ler as Escrituras de modo receptivo em seu caráter original, transformador. Ele tirou a Bíblia do meio da naftalina em que havia sido guardada por tanto tempo pelos acadêmicos e tantas outras pessoas, demonstrando quão viva ela permanece e como se distingue dos livros que podem ser “manipulados”, ou seja, dissecados, analisados e depois usados conforme a nossa conveniência. Ele mostrou, de maneira clara e contundente, que esse tipo diferente de estilo (revelador e íntimo, em vez de informativo e impessoal) requer igualmente um tipo diverso de leitura (receptiva e vagarosa, em vez de reservada e acelerada).

Da mesma forma, ele prosseguiu chamando a minha atenção para escritores que haviam assimilado o estilo bíblico, escrevendo de acordo com esse estilo e nos induzindo, como leitores, a reações capazes de transformar a vida. O escritor russo Dostoievski é um exemplo. Em seus romances, ele reproduziu a inversão radical dos valores humanos originais ocorrida em Gênesis, moldando os personagens sob a rubrica do “contudo” divino, e não do “portanto”. Mais tarde, Barth publicou seu discurso em Leutwil sob o título “O estranho novo mundo no interior da Bíblia”. Em uma época e uma cultura nas quais a Bíblia tinha sido embalsamada e enterrada por duas gerações de eruditos agentes funerários, ele insistiu apaixonada e incessantemente em que “a criança não está morta, mas dorme”, tomando-a pela mão e dizendo: “Levanta-te”. Nos cinqüenta anos seguintes, Barth demonstrou o incrível vigor e a energia irradiados a partir das frases e histórias desse livro, assim como nos mostrou como lê-las.

* * *

Barth defendeu a opinião de que nossa leitura da Bíblia, assim como dos escritos moldados por ela, não é orientada pelo desejo de descobrir como incluir Deus em nossa vida e fazê-lo participar de nossa existência. Nada disso. Abrimos o livro e percebemos que, a cada página, ele nos tira da defensiva, nos surpreende e atrai para uma realidade própria, induzindo-nos a um envolvimento com Deus nos termos divinos. Ele propôs uma ilustração que se tornou famosa. Uso aqui a base de seu relato, mas, com uma pequena ajuda de Walker Percy, tomei a liberdade de incluir detalhes por conta própria. Imagine um grupo de homens e mulheres em um enorme galpão. Eles nasceram nesse galpão, cresceram nele e têm ali tudo de que precisam para suprir as necessidades e viver com conforto.

Não há saídas no galpão, mas há janelas. Elas estão grossas de tanto pó; nunca são limpas e ninguém jamais se preocupa em olhar para fora. Para que olhar? O depósito é tudo o que conhecem. Ali eles têm tudo de que precisam. Certo dia, porém, uma das crianças arrasta um banquinho para junto de uma janela, raspa a sujeira e olha para fora. Ela vê pessoas caminhando nas ruas; chama seus amigos para apreciarem também. Eles se espremem ao redor da janela — não tinham idéia de que havia um mundo do lado de fora do galpão. Notam, então, uma pessoa na rua olhando e apontando para cima; não demora muito e várias pessoas se juntam, levantando os olhos e falando animadamente. As crianças olham para cima, mas não há nada para ver além do telhado do galpão. Elas finalmente se cansam de espiar as pessoas na rua agindo de uma maneira esquisita, apontando para o nada e se entusiasmando com isso. Qual o sentido de ficar parado à toa, apontando para o vazio e falando com entusiasmo sobre o nada? O que aquelas pessoas da rua olhavam era um avião (ou um bando de gansos voando, ou um acúmulo gigantesco de nuvens). Quem passa na rua levanta os olhos e vê o céu e tudo o que há nele. As pessoas no galpão não têm um céu acima delas, apenas um teto.

O que aconteceria, porém, se um dia uma daquelas crianças abrisse uma porta na parede do galpão, insistisse com seus amigos para sair e descobrisse com eles o céu imenso por sobre sua cabeça e o grandioso horizonte adiante? É isso o que acontece, escreve Barth, quando abrimos a Bíblia:

entramos em um mundo totalmente desconhecido, o mundo de Deus, de criação e da salvação, que se estende infinitamente sobre e além de nós. A vida no galpão nunca nos preparou para algo assim. Como era de esperar, os adultos no depósito zombaram das histórias das crianças. Afinal de contas, eles têm o controle completo do mundo do galpão, como nunca seriam capazes de fazer do lado de fora. E desejam manter as coisas desse jeito.

* * *

Paulo foi a primeira criança que raspou a sujeira da janela para Barth, abriu uma porta no galpão e insistiu que ele saísse para o grande e estranho mundo do qual os escritores bíblicos dão testemunho. Em contato com essa escola de escritores, partindo de Paulo, mas logo incluindo toda a faculdade do Espírito Santo, Barth tornou-se um leitor cristão, lendo palavras a fim de ser formado pela Palavra. Só então ele passou a ser um escritor cristão.

A narrativa de Barth sobre o que lhe aconteceu foi publicada posteriormente em The Word of God and the Word of Man [A Palavra de Deus e a palavra do homem]. O romancista John Updike afirmou que o livro “apresentou-me uma filosofia para viver e trabalhar e mudou desse modo a minha vida”. Ao receber a medalha Campion em 1997, Updike deu crédito à fé cristã revelada na Bíblia recém-descoberta de Barth, por ensinar-lhe, como escritor, “que a verdade é sagrada, e falar a verdade é uma nobre e útil profissão; que a realidade que nos rodeia é criada e vale a pena ser observada; que homens e mulheres são radicalmente imperfeitos e radicalmente valiosos”.



Eugene H. Peterson

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