AS MARCAS DE JESUS
Paz, a todos os corações e Deus esteja com todos.

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Eldier






Sou um homem em construção (Ricardo Gondim)

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Sou um homem em construção (Ricardo Gondim)

Mensagem por Admin em Qui Maio 12, 2016 5:38 pm





Estou em processo. Sou obra inacabada, frase com reticências, quadro sem os retoques finais. Para continuar assim, dinamito alguns pressupostos. Sem pressa, procuro novos alicerces para erguer meu tabernáculo, meu santuário, minha morada pela terra.

Como meu prazo de validade se expira rapidamente, acelero as mudanças que preciso fazer. Identifico uma  – que vem acontecendo sem que eu mesmo perceba: desisto de tentar emoldurar o mistério de Deus.

Faz alguns anos, escrevi um texto confessando cansaço. Na verdade eu nem estava fadigado. O texto era mero grito em que eu revelava um profundo anseio por uma nova estrada. Eu vinha percebendo que os fios das minhas lógicas religiosas estavam soltos. Caso não desistisse de certas premissas, desperdiçaria as derradeiras energias de minha história com arrazoamentos prescindíveis.

Depois que li autores diversos, criei coragem de fazer perguntas difíceis. Mesmo sem reposta conclusiva, obedeci o conselho de Jesus, calculei os riscos e tomei um caminho menos trilhado. Hoje, nado contra a correnteza sem aquela antiga canseira.

Contudo, repito: sou um homem em transformação. Minha teologia se converteu em teopoética. Adotei o ritmo da poesia e larguei a exatidão dogmática. Esforço-me para garimpar esperança na verdade sutil – aquela que se esconde nas entrelinhas. Celebro a força do poeta. Alguém algum dia perguntou se era possível sentir beleza nessa realidade que fervilha “em larvas, numa terra prenhe de cadáveres”.  Digo que sim. Se insisto em me manter crente é porque entendo a Bíblia como um poema, não crônica jornalística. Agora, sem pretensão de codificar o divino, leio as Escrituras pelas frestas da metáfora, do mítico e da parábola.

Acredito que a feiura só deixa de intimidar pela gentileza – nunca com argumentos. Se Deus fala, suas palavras devem vir como água fresca que floresce a caatinga árida. Se no fiat primordial o universo explodiu prenhe de vida, a palavra divina só sobreviverá aos céus e à terra se continuar como um aceno de que Deus ainda crê na humanidade. O propósito da criação permanece: Deus anela que sejamos aquarela, diapasão de sinfonias infinitas e encarnação da eternidade. Ele sempre quis que guardássemos em nós o potencial de ser espetaculares. O lume que nos habita não pode apagar.

Sim, o mal nos ronda, nos seduz e também nos domina. A perversidade se multiplica em tantos rostos. Não faltam ímpios em busca de perpetuar estruturas demoníacas. Contudo, que mais artistas resistam essa avalancha; que mais estivadores lavem a impiedade com o suor do trabalho digno; que mais operárias mostrem mãos calejadas como sinal de que vale a pena nos doarmos quando amamos; que mais médicos, violinistas, filósofas, sacerdotes, cantores de churrascaria e psicólogas sejam diques contra a inundação da impiedade. Mas que a sanha do traficante, do mercador internacional de armas, ou do explorador da mão de obra infantil não prevaleça.

Ofereço a minha mão a todos os que se voluntariam a serviço da vida. Olhemos para o horizonte mais distante e avisemos: jamais sossegaremos até que os primeiros fios da aurora se tornem dia perfeito.

Insisto apesar de qualquer cansaço porque acredito: os mansos herdarão o porvir. Os grilhões do ódio humano não resistirão ao dobrar dos sinos anunciando as ações de homens e de mulheres plenos de boa vontade. Os que amam a justiça continuarão como farol erguido no alto de uma colina. Ele nunca cessarão de proclamar: a luz triunfará sobre as trevas.
Se nesse empenho, couber uma linguagem enfrentamento que seja: a bondade é fermento, a mansidão, ácido e a integridade, um aríete. Prometamos a nós mesmos jamais nos valermos das armas da intolerância.

Assim preservo o fôlego. Preciso me manter sereno. Se convivo com um mundo que banaliza a morte, digo a mim mesmo que vou continuar a acreditar na pertinência do amor, na densidade da mansidão e na energia da solidariedade. Acossado pela decepção, procurarei sempre trazer à memória que um soldado romano se fez servo de um escravo, que uma mãe conseguiu convencer a Jesus a mudar, que dois cego gritaram e o filho de Davi parou para escutá-los e que um ladrão prenunciou o paraíso em seu derradeiro minuto de vida.

Não desejo esquecer que mais de sete mil profetas permanecem de pé. Quero me rodear de gente como eles, que não renegam o sofrimento como se fosse maldição. Inspirado no Nazareno, anseio aprender sobre a força da fragilidade. Preciso me manter maleável no malhar do martelo da vida já que pretendo continuar mudando.

Soli Deo Gloria

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